depressão/superação
QUANDO EU MORRI
A primeira vez que eu morri, as pessoas não perceberam: eu cantava, brincava, contava piadas, fazia barulhos e algazarras, e as pessoas ainda pensavam que eu estava vivo; mas não estava. Eu jaz. E elas sequer perceberam. Mas, morto, eu pude ver que eu nunca vivera de verdade, apenas existira e sequer deixara um rastro da existência. Quando morri dessa vez, eu percebi que já estava morto mesmo quando acreditava estar vivo, e, depois da morte, eu pude chorar e descobrir que eu gostaria muito de ter vivido e não apenas existido. Quando morri, eu me enxerguei, e, arrependido, percebi que o que eu queria mesmo, durante todo o tempo em que estava morto, era ter vivido de verdade.
Quando tentei viver, então, eu não consegui, pois é difícil você viver quando por dentro você já está morto e não respira mais, então percebi que eu não poderia fazer isso sozinho. Mas também não podia pedir ajuda para viver, pois é difícil para quem está morto assim falar a linguagem dos que vivem. Mas, mesmo morto, eu clamei por ajuda. De alguma forma alguém me ouviu e me puxou para fora, lenta e calmamente. Eu respirei pouco a pouco e, assim, fui percebendo que eu era, sim, capaz de viver. Pensei que tinha voltado à vida e, acreditando nisso, eu sorri, eu chorei, eu gritei, eu aplaudi, eu fiz amigos e eu fui para cima: eu voltei a ter vida!
Quando morri de novo foi de repente: eu caí, pois sempre caio de dentro de mim: a minha beirada é estreita demais. Um vento forte me derruba, um tremor me faz desabar e uma tempestade me arremessa para longe do meu beiral. Então, quando ventou, eu despenquei para dentro de mim, e lá tinha um abismo que eu conhecia, mas desconhecia a proporção. E de novo percebi que eu, outra vez, estava morto.
Então aceitei minha condição, pois quando se morre assim, várias vezes, chega um momento em que se para e só se ouve a tempestade, sem força para fugir dela, pois esse vento se torna parte do ser e se torna a própria certeza do que você é.
Morto, então, eu continuei. Sem forças, sem ânimo. Até que alguém se aproximou quando eu nem percebia e de repente notei que, enquanto eu ainda acreditava estar morto, esse alguém já havia me retirado da tempestade e me apontava o sol, tentando me fazer ver que eu estava vivo. No início eu não quis ver; não quis acreditar, pois tinha medo de acreditar demais e, por acreditar demais, morrer de novo. Eu reneguei e quis voltar lá para dentro, mas esse alguém me puxou tão forte que eu fui arrastado, e só me dei conta quando já vivia de novo aquela vida colorida daquele alguém que eu passei chamar de Amigo.
Mas eu morri novamente! É assim mesmo quando não se é seguro e se é fraco demais, mesmo sendo forte: a gente morre muitas vezes. Ser forte nesse momento não é vantagem, é derrota, pois a sua força se volta contra si mesmo. A força que você tem de levantar é a força que te derruba, a força que você tem de superar é a força que te consome; a força que você tem de ir adiante é a força que te faz recuar. Toda a força que você tem para romper é a força que te joga de volta lá dentro, pois você está lutando consigo e, sabendo da sua força, você se anula, se consome, se derrota, se elimina e se dá por acabado. Assim você morre sem se dar conta, e quando percebe, já morreu. Sem me dar conta, então, novamente eu tinha morrido.
E eu estava lá dentro, esperando ser consumido e desaparecer, mas de novo aquele alguém apareceu dizendo que eu não estava morto, que eu estava vivo. E quanto mais eu dizia que estava morto, mais esse alguém dizia que não, que eu estava vivo. Mas eu dizia que estava morto, e o outro dizia: não, você está vivo! Mas eu sentia que estava morto: eu me olhava e me via morto, então perguntava: como posso estar vivo se estou me vendo morto, me sentindo morto e já não respiro mais? Aquele alguém disse: você está vivo, e eu vou te mostrar! E me mostrou: me emprestou seu coração, eu tomei, toquei, senti e tremi: eu olhei e vi um sorriso. Eu estremeci de novo. Eu me olhei de novo e me vi colorido: de novo eu tremi. Eu estava vivo!
Mas sempre se morre. Sempre se cai. Sempre se despenca para aquele fundo tão estranho e invisível, mas ao mesmo tempo tao palpável e abstrato. Então, como sempre, de novo eu morri. Tantas vezes eu morri, e tantas vezes voltei à vida. Agora estou vivo, mas sei que em algum momento vou morrer de novo. Olho para dentro e suspiro. Morrer muitas vezes tem esse contratempo: você suspira e espera. Sorri e espera.
Dói saber que não sou o único, e que tantos outros sorriem enquanto morrem todos os dias. Sorriso não é sintoma de felicidade: as pessoas são bem menos felizes do que demonstram. Se alguém ler esse texto e achar que também vai morrer de novo saiba que, mesmo morrendo, tente não se finalizar. Não se acabe; não se faça ir para sempre, não se obrigue a se deixar de existir. Se esse caminho parecer provável demais, saiba que é porque você está morto, e, quando se está assim, é normal mesmo ver tudo cinza e escuro demais. Mas é só uma ilusão: aqui fora tem alguém tentando te dar vida.
Vamos ficar juntos e tentar viver juntos, o quanto pudermos, antes de morrermos de novo. Mas, se a gente morrer, vai ser mais fácil o resgate se deixarmos um rastro: então faremos isso. Vamos criar um rastro para, caso a gente se perca de nós mesmos, alguém possa nos encontrar.
Vamos conversar sobre isso; vamos falar com aqueles Amigos insuperáveis sobre nossos medos. Não tente vencer sozinho, pois você não conseguirá! Se criar uma aliança, mesmo caindo e morrendo, é mais fácil te trazer de volta à vida.
Não ligue para quem te julga, pois as pessoas vão te julgar até não restar mais o pó dos seus ossos! Não olhe para os lados, pois sempre há abutres no caminho esperando você cair morto mais uma vez para atacar sua carne debilitada. Olhe para frente: você tem mais Amigos do que pensa. Dê só mais um passo, e será um grande passo. Ande só mais alguns poucos centímetros, e será uma grande jornada. Tente só mais uma vez, já será a sua conquista.
Sempre terá os impiedosos, muitas vezes ignorantes de nossa guerra, dizendo ser o nosso mal frescura, palhaçada, drama, vontade de chamar atenção, coisas de mulher… Não escute: essas pessoas estão ali apenas para atrapalhar a batalha. Ignore! Ouça quem te chamar; ande para quem lhe estender a mão. Fuja de quem lhe fizer mal e lhe fizer tremer, ameaçando seu frágil equilíbrio: afaste-se! Não tente lutar sozinho nem enfrentar muitas batalhas ao mesmo tempo: faça cada coisa em seu próprio tempo. Mesmo morrendo, tente sobreviver, não para os outros, mas para você, porque você é importante demais para estar morto. Respire mais uma vez, só mais uma vez: dê um suspiro. Esse suspiro será uma pista para que seus amigos te encontrem caso você não se encontre mais.
Se você estiver lendo esse texto e acreditar que está sozinho, saiba que eu também costumo pensar assim, mas nós não estamos, pois as paredes do abismo impedem que vejamos o horizonte. Converse sobre você, se abra, deixe-se fluir lentamente, o quanto você conseguir, pouco a pouco. Vai ficar mais suportável. Diga em voz alta e baixa, para fora, para que um Amigo possa ouvir, pois se deixar aí dentro, isso vai te sufocar e de novo vai fazer você morrer. Você não está sozinho: existem tantas outras pessoas assim como nós, tentando não morrer dia após dia: nós estamos juntos nessa!
E proteja seu coração. Se tudo desabar e você cair: é nele que vai se acender a fagulha que vai te trazer de volta. Não desanime! Um dia, toda batalha enfrentada vai fazer você valer a pena.
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