quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Mar

Contigo eu sei o que fazer.
Eu só não sei o que fazer comigo. hoje eu me olhei no espelho, e embora eu estivesse la, com os olhinhos falando e com o corpo reprimindo a dor que mais tarde foi sentida e expelida no banho, vi tanto de você em mim que precisei balançar a cabeça até então decidir que a melhor saída era a de sair de frente do espelho. 
eu te carreguei e carrego por tanto tempo em mim que virei nós, um nó tão forte que eu tenho feito das tripas coração para desatar, mesmo sem saber se é preciso. acho que foi porque eu te gravei, tivesse sido na primeira de todas as vezes ou em todos os dias de sexta-feira. parece um filme, ou uma novela. eu vejo o teu olhar sobre o meu corpo, e esse corpo transmitindo tudo. e eu vejo o meu olhar, exatamente dos glóbulos oculares fingindo ser uma tv onde através dela todas as cenas passam. a cena da tua existência sobre a minha, que me embolou e me amaranhou tanto, tanto, tanto, e tanto sempre. tão forte e tão profundo que está faltando ar, tanto sobre os pulmões como sobre as máquinas que arquivam e arquivaram o nosso filme. ta doendo, amor. e é por causa disso que não sei se te torno um amor particular ou se te mando embora pela porta em que deixei entrar ou melhor, a que você chutou. tão forte e tão bruto, tão tu e tão do teu jeito inocente que é justamente isso que tenho tentado justificar coisas justificáveis. amor não se escolhe, amor não se escolhe, amor não se escolhe. não nas primeiras vistas. não nos primeiros olhares. porque, sabe. eu não te escolhi. acho que quem me escolheu foi tu, e te digo isso sem te atribuir ou depositar em ti responsabilidade alguma. tu me escolheu naqueles dias frios, mesmo que alheia a mim. a tua presença chegou e me disse: vem ca, me ama um pouco e forte e voraz e muito, deixa eu te dar um tiquim da sensação de não precisar amar sozinho e receber em troca o vazio, o não. e aí, porque ja estava em mim, eu disse sim. e aí se enraizou tanto que noite passada eu fiquei meio dormindo meio acordado dizendo que esse amor bruto, feito o rugido do leão, feito a chuva de verão, feito a música da Cassia, feito tudo o que um dia eu te dei em forma de palavra e em forma de mim mesmo jamais ia me derrubar, ou me fazer sofrer. ou me sugar. chorando eu disse chorando que não ia deixar eu me afundar na dor que o desencontro causa e que a surpresa provoca. porque eu sei como o amor acontece. e também quando não acontece. contigo aconteceu tanto que tantas vezes eu prendi o ar na garganta e as vezes o sono pensando como é possível essa coisa de se sentir e se dar tanto a outra pessoa sem que haja qualquer dificuldade ou resistência. porque amor, eu não resisti e nao resisto a tu nem por um segundo se quer, não enquanto tu me toca e me domina no meu eu interior que pulou nos teus braços mostrando a própria existência. eu queria te perguntar aquela mesma coisinha que as anavitoria com a sandy perguntaram naquela música me diz o que eu faço dessa vida sem você? quem é que vai me levantar agora. laralala larala mesmo sem tu ter ido embora ainda e mesmo sem eu saber se tu vai, porque longe tu ja ta e os kms mostram isso. eu me refiro aqui dentro, tu sabe. porque pra consegui ser teu de alguma forma eu tenho que matar um dos amores que sinto por ti aqui dentro; e é justamente esse que me impele a escrever e dizer que nunca esteve nos meus planos matar aquilo que me acende e me acrescenta todos os dias. 

contigo eu sei o que fazer. eu só não sei o que fazer com esse Mar que tu tanto gostou de se banhar e renovar as próprias forças. se algum dia eu te matar tu vai sentir, e ai eu vou te dizer que antes de tu eu senti muito, e até sangrei, do jeitinho secreto e poético e único que sei.

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

você virou poesia

Mais uma vez assumindo para mim mesmo que eu sinto sua falta. 
Sinto sua falta como quando você sente falta daquela série que acabou, e tu sabe que não existem novos capítulos daquela história – somente o que foi e o que se é –  mas tu insiste em ficar reprisando os episódios. 
Sinto falta como sinto daquela série maravilhosa com personagens incríveis que foi cancelada pela Netflix e não teve desfecho – assim como nós.
Nossa história é aquele livro inacabado que não será publicado. 
O quadro artístico que não teve uma exposição.
A foto que não virou porta-retrato. 
Sinto falta de algo que sei que não volta; que não existem novos capítulos; que não terá uma nova edição; que a editora não irá mais traduzir; que a rádio nunca mais irá tocar. 
Van Gogh uma vez diz que não há nada mais artístico do que amar verdadeiramente as pessoas. 
Te amar foi arte. Romântica incurável, te transformo em poesia. 
Há quem diga que se apaixonar por alguém que escreve é nunca morrer, então te digo, tu/nós estará presente em meus textos, para sempre.

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Portas

Tava pensando aqui que fechar as portas da vida pra alguém não é só bater a porta... às vezes ela emperra, o trinco solta, a chave some... leva tempo pra ser resolvido até de fato as portas serem fechadas e trancadas para nunca mais serem abertas.